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Robert Parker e outros sistemas de avaliação e pontuação de vinhos.

A avaliação de vinhos feita por Robert Parker e seu sistema de pontuação inaugurou a era globalizada de opiniões especializadas sobre o assunto. Ainda não existe uma padronização mundial, mas muito do sistema desenvolvido por ele teve grande influência no mercado. Querendo ou não, as avaliações dos vinhos ajudam os consumidores a escolher, com base em alguns critérios, entre inúmeras garrafas disponíveis nas lojas físicas e virtuais. Não é, entretanto – ou ao menos não deveria ser – um julgamento absoluto.

Os sistemas de pontuação tentam dar um suporte mais analítico, menos subjetivo, e assim facilitar (e muito!) nossas escolhas. Contudo, e mais uma vez lembrando nossos leitores, o mais importante para que essas avaliações tenham sentido, é ter vinho na taça (experiência prática) e manter um hábito de avaliação (memórias olfativa e gustativa).

Vinhos pontuados são melhores?

A função da pontuação dos vinhos é qualificar sua elaboração, além de analisar sua tipicidade. Tipicidade significa o grau de representação do vinho em relação ao estilo de determinada região, ou seja, o quanto do terroir está presente no vinho.

É importante ressaltar que é muito difícil, para nós humanos, nos livrarmos da subjetividade, mas a avaliação é uma tentativa nesse caminho.

Além disso, sutilezas gustativas e aromáticas podem definir o gosto pessoal. Por exemplo, existem basicamente duas escolas de pensamento em relação aos vinhos excepcionais classificados acima de 90 pontos:

  1. Especialistas e degustadores que preferem vinhos complexos e potentes;
  2. Especialistas e degustadores que preferem vinhos complexos e sutis;

Portanto, conhecer o estilo do crítico é de grande relevância antes de fazer suas escolhas.

O sistema de pontuação de Robert Parker

Robert Parker nasceu em 1947, estudou advocacia e se interessou pelo mundo do vinho quando visitou a França, ainda estudante nos anos 70. Na época, as publicações sobre vinhos nos Estados Unidos, em sua maioria, eram feitas sob um olhar comercial e pouco independente.

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Robert Parker: crítico de vinho e principal responsável pelo sistema de classificação até 100 pontos.

Parker então, em 1975, começou a escrever um guia de vinhos que pudesse trazer um olhar mais neutro sobre os rótulos avaliados. Em 1978, lançou a primeira edição do The Wine Advocate Baltimore-Washington. Um jornal bimestral que fazia avaliações de vinhos baseadas em um sistema de 50 a 100 pontos. Em 1982, chamou a atenção dos críticos quando previu que os vinhos de Bordeaux daquele ano alcançariam a excelência evolutiva com a guarda.

Em 1984, já famoso, largou a carreira de advogado, e a partir de então, possui uma reputação de maior crítico mundial de vinhos. Obviamente, há controvérsias! E convenhamos, essa ideia de “maior crítico” não tem muito sentido. Mesmo assim, especialistas que discordam de alguns conceitos seus, como Jancis Robinson, reconhecem a importância e influência do americano.

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Primeira edição de 1978 da Wine Advocate.

Veja seu sistema de classificação numérica com suas respectivas justificativas:

90-100 – é dado apenas quando o vinho possui características excepcionais ou especiais. Vinhos classificados nessa categoria representam o que de melhor é produzido pelo seu tipo. Claro que há uma grande diferença entre uma classificação 90 e 99, mas ambos os vinhos são muito superiores. E são poucos os que alcançam esse patamar.

80-89  – vinhos classificados nessa faixa são ótimos, principalmente os que ficam entre 85-89. Muitos são os vinhos que se encaixam nessa categoria.

70-79  – vinhos entre 75 e 79 são muito agradáveis, porém sem muita complexidade ou profundidade. Abaixo de 75 significa que o vinho está beirando ao desequilíbrio, mas ainda tem seus atrativos.

Abaixo de 70 – significa que o vinho é falho, sem equilíbrio ou terrivelmente cansativo. Esse vinho não traz nenhum interesse por parte dos consumidores mais exigentes.

Parker salienta que, na verdade, seu sistema considera uma base de 50 pontos para cada vinho. Essa pontuação está distribuída em:

  • Cor e aparência: até 5 pontos (de modo geral os vinhos são bem avaliados nesse quesito e atingem na maioria 4 pontos);
  • Aroma e bouquet: até 15 pontos (intensidade e alcance);
  • Sabor: até 20 pontos (considere equilíbrio, limpidez, profundidade, persistência na boca);
  • Qualidade Global e Potencial de Evolução: até 10 pontos.

Sistema de Pontuação Robert Parker.

Classificação da revista Decanter

A Decanter Magazine é uma revista britânica criada em 1975 e distribuída em mais de 90 países. Até 2012, adotava um sistema de classificação de vinhos de 0 a 5 estrelas, desenvolvido pelo crítico Michael Broadbent. Desde então, utiliza uma composição formada pelos sistemas de 20 pontos e o de 100 pontos.

Liderada pelo renomado crítico Stephen Spurrier – o mesmo do Julgamento de Paris – promove desde 2004 a Decanter World Wine Awards (DWWA), um prestigiado concurso internacional de vinhos.

Sistema de classificação de vinhos da revista Decanter.

Sistema de pontuação de Jancis Robinson

É uma famosa crítica de vinho, escritora e jornalista britânica. Formada em matemática e filosofia, ela escreve semanalmente para o Financial Times. Seu prestígio é muito grande, sendo ela a conselheira de vinhos da Rainha da Inglaterra.

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Escritora e crítica de vinhos Jancis Robinson.

Seu sistema classifica os vinhos de 0 a 20 pontos:

20 – verdadeiramente excepcional;

19 – extraordinário;

18 – pouco acima de superior;

17 – superior;

16 – distinto;

15 – médio (bebida agradável, sem falhas, mas sem muita emoção);

14 – maçante (cansativo);

13 – na fronteira entre defeituoso ou desequilibrado;

12 – defeituoso ou desequilibrado.

Sistema de pontuação de Jancis Robinson.

Classificação da Wine Spectator

Criada em 1976, a Wine Spectator talvez seja a mais prestigiada revista sobre vinhos. Segundo seus editores, são realizadas mais de 15.000 degustações às cegas por ano, além de revisões.

A Wine Spectator atribui notas de 50 a 100 pontos aos vinhos avaliados.

Sistema de pontuação da Wine Spectator.

Classificação da Wine Enthusiast

Fundada em 1979 por Adam e Sybil Strum e sediada em Nova York, é uma empresa americana que comercializa vinhos e acessórios. Em 1988, foi criada a revista que apresenta suas classificações periodicamente.

Sistema usado de 50 a 100 pontos.

Classificação de vinhos da Wine Enthusiast.

Classificação do Guia Descorchados

Criado pelo jornalista e escritor Patricio Tapias, é o guia chileno publicado anualmente, desde 1999. Adota o sistema de classificação de 50 a 100 pontos.

Classificação de vinhos do Guia Descorchados.

Classificação do Guia Gambero Rosso

O Gambero Rosso é o guia sobre vinhos mais influente da Itália e publicado desde 1987. São classificados apenas os vinhos considerados pelos editores como acima da média. Após as degustações às cegas feitas por especialistas, são atribuídos de 0 a 3 Bicchieri (taças) aos vinhos. Além disso, os produtores que obtiverem por 10 vezes os três bicchieri em seus vinhos ganham um selo Stella (estrela).

Sistema de pontuação de vinhos Gambero Rosso.

Classificação da Wine Spirits

Revista americana publicada desde 1986. Adota o sistema até 100 pontos com pequenas variações:

95-100 – superlativo, um achado raro;

90-94 – exemplar excepcional do tipo do vinho representado;

86-89 – altamente recomendado;

80-85 – um bom exemplo da variedade ou da região.

Classificação de vinhos Wine Spirits.

Classificação Le Guide Hachette des Vins

O Guide Hachette é guia mais vendido na França e publicado anualmente desde 1985. As degustações às cegas feitas por especialistas e críticos classificam os vinhos em até 5 estrelas. Após, os vinhos mais votados passam por uma segunda rodada onde são escolhidos um ou dois que receberão o título de Coup de Coeur (Vinho Destaque), que significa a mais alta recomendação.

5 – excepcional (três estrelas);

4 – notável (duas estrelas);

3 – excelente (uma estrela);

2 – bom (nenhuma estrela);

1 – fraco ou medíocre (eliminado);

0 – vinho defeituoso (eliminado).

Sistema de classificação de vinhos Guide Hachette.

Classificação da Revue des Vins de France

A Revue des Vins de France (RVF) é uma publicação francesa mensal fundada em 1927. Já foi muito elogiada pela crítica Jancis Robinson como sendo a mais séria da França. Publica anualmente um guia dos vinhos franceses avaliados em até 20 pontos e também as regiões, que recebem até 3 estrelas.

Sistema de avaliação da Revue des Vins de France.

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Experimente e explore novos sabores de vinhos.

Avaliação de vinhos por aplicativos

Seja qual for o sistema de pontuação de vinhos adotado, é importante entender que eles são ferramentas úteis. Ultimamente, os aplicativos como Vivino, Celltracker e tantos outros ganharam o gosto dos enófilos. Avaliações coletivas podem ser válidas para se chegar em uma média de opiniões;  porém, um dos problemas é não saber o grau de experiência dos degustadores.

Conclusão

Nossa mensagem final é: experimente e eduque seu paladar, assim como sua memória olfativa. Para isso, leve em consideração as classificações dos vinhos, mas saiba que a grande maioria dos vinhos não chega a ser avaliada. Portanto, explore novas regiões e sabores exóticos, pois com certeza, aos poucos, você vai encontrar os estilos que melhor lhe agradam.

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uva chardonnay nos vinhos brancos

Uva Chardonnay: a versatilidade da rainha dos vinhos brancos

Não tem como falar de vinho branco sem falar da uva Chardonnay, considerada a rainha das castas brancas devido a sua popularidade. Por sua fácil adaptação em diversas regiões do mundo, nos faz lembrar a onipresente Cabernet Sauvignon. Sua capacidade de absorver características locais, permite uma verdadeira expressão do terroir.

Chardonnay: variedade original e uso dos clones

A região francesa Chardonnay, em Saône-et-Loire (na Borgonha), é conhecida por esse nome desde 1400, mas o nome da uva só foi padronizado em 1896 pelas autoridades de um conselho formado por vitivinicultores locais. Antes disso a cepa francesa era chamada por vários nomes semelhantes como Chaudenet, Chardenet, Chardonnet ou Chardenay.

Já foi especulado que ela teria vindo de Israel durante a volta dos Cruzados na Idade Média, mas não há nenhum registro que prove essa história. A Associação dos Vinhos de Borgonha (Bourgogne Wine Board) descreve a Chardonnay como descendente do cruzamento da Pinot Noir com outra variedade muito antiga, a Gouais Blanc. Como ainda não há uma palavra final sobre sua origem, ficamos com a opinião de um dos mais renomados estudiosos do assunto, o ampelógrafo Pierre Galet, que dizia que realmente a Chardonnay é uma varietal original.

sistema condução espaldeira chardonnay
O sistema de condução mais comum usado nas vinhas de Chardonnay é o tipo espaldeira.

Na verdade, após o advento dos clones, o que existe é uma gama de Chardonnays. As mais famosas são as desenvolvidas pelo Instituto Francês do Vinho e da Vinha, na Universidade de Borgonha, em Dijon. Em 2006, o número de clones era 34, mas aos poucos, foram diminuindo e hoje, um produtor tem pouco mais de uma dezena de clones para escolher. Cada clone possui características adaptativas, ou seja, alguns clones têm grande potencial de rendimento de frutos, outros possuem uma capacidade aromática maior. Cabe ao enólogo escolher aquele mais adequado ao seu terroir.

Outro clone Chardonnay muito presente, principalmente no Novo Mundo, é o chamado clone Mendoza ou Gin Gin. Foi usado nos anos 70 pela primeira vez, na Califórnia, e tem se adaptado em diversas regiões.

Vinificação: moldando sabores com a Chardonnay

No fundo, podemos dizer que a Chardonnay tem uma presença muito neutra e “maleável”. O que ela faz muito bem é refletir as condições oferecidas a ela. Sua versatilidade nos permite elaborar vinhos tranquilos, vinhos doces (colheita tardia) e espumantes.

As principais questões a serem respondidas durante a sua vinificação são:

  1. Qual será (se houver) o grau de influência desejada da madeira no processo?
  2. Haverá fermentação malolática, ou não?

Possui um crescimento muito vigoroso da videira, e por isso quando o objetivo for uma concentração de aromas nos frutos, deve-se diminuir o rendimento por planta. No caso dos Champagnes, a elegância e o equilíbrio dependem muito da acidez do fruto, de modo que a concentração aromática (baixo rendimento) não costuma ser o principal desafio.

Se colhidas muito maduras os aromas tropicais sobem, enquanto se as uvas forem colhidas um pouco antes de uma maturação plena, os sabores tendem aos de maçã verde e limão.

Na França é a segunda uva branca mais plantada, atrás da Trebbiano (Ugni Blanc).
Na França é a segunda uva branca mais plantada, atrás da Trebbiano (Ugni Blanc).

Outra decisão a ser tomada é o tempo de contato com as borras durante a maturação. Esse tempo nos vinhos da Borgonha costuma ser prolongado, e algumas vezes durante a maturação, ele é agitado manualmente, em um processo chamado de bâtonnage.

A temperatura da fermentação também influencia muito na elaboração dos vinhos Chardonnay. Temperaturas mais frias durante esse processo favorecem os aromas tropicais como abacaxi e manga. Além disso, devido a sua fantástica capacidade de absorver o terroir e responder aos processos na adega, os sabores podem apresentar uma extensa gama: maçã verde, pêra, frutas cítricas, fumo ou mel.

A fermentação malolática contribui para os sabores amanteigados e suaves, enquanto o carvalho com notas de baunilha e tostado.

Chablis

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A casta Chardonnay é a única uva permitida na região de Chablis AOC (Appellation de Origine Contrôlée), na França. Nessa região ela encontra um solo argiloso, com muito calcário e conchas de ostras fossilizadas, onde muitos acreditam que a casta alcança sua maior expressão. O resultado são os famosos Chablis, ricos em aromas de maçã verde e com uma extraordinária capacidade de envelhecimento.

Os aromas dos vinhos envelhecidos Premier Cru e Grand Cru de Chablis, mostram notas delicadas de mel, nozes e um frescor mineral de pedra molhada. Os franceses inclusive usam uma expressão curiosa para descrevê-los: goût de pierre à fusil (“gosto de espingarda”, em uma tradução grosseira). A expressão está associada ao caráter mineral do vinho, fazendo referência ao odor do disparo dos mosquetes de infantaria do século XVII, que unia o cheiro de pedra de sílex com pólvora queimada. No geral são vinhos elegantes onde a Chardonnay revela grande sofisticação.

A Chardonnay também é destaque em diversas outras micro-regiões da Borgonha, como Côte de Beaune (Meursault e Puligny-Montrachet em particular) e Mâconnais (Pouilly-Fuissé).

Chardonnay em Champagne

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O icônico espumante da região de Champagne é primariamente elaborado a partir das 3 castas: Pinot NoirPinot Meunier e a Chardonnay. Quando a escolha é um Blanc de Blancs – feito somente com uvas brancas – a presença da Chardonnay é imprescindível.

Apesar da quantidade de sol recebido em Champagne ser parecida com a de Chablis, o comportamento da uva é diverso. Devido à diferença de temperatura – em Champagne é ligeiramente mais alta – os frutos são colhidos antes da maturação plena, o que faz com que os sabores de frutas sejam mais contidos. Para os produtores isso é bom, pois o Champagne busca principalmente o equilíbrio e o requinte através da acidez da fruta.

Conclusão

Apesar de a França ser a casa da Chardonnay, outros países como Itália, Espanha, EUA, Chile, Argentina, Brasil (lembramos de nossos premiados espumantes), África do Sul, Nova Zelândia e Austrália, têm apresentado vinhos de ótima qualidade feitos a partir da casta francesa. E isso se deve muito às características de adaptação da Chardonnay: a rainha cosmopolita. Cheers!

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