beneficios do vinho tinto

Afinal, os benefícios do vinho estão comprovados?

Não bebemos vinho somente porque ele traz benefícios à saúde. O vinho abrange muitas outras coisas. Contudo, vamos fazer uma reflexão a respeito desse seu aspecto louvável.

Pela ótica medicinal, os benefícios do vinho são conhecidos desde os tempos remotos. Na Grécia antiga era adicionado na água para matar bactérias ou para que ficasse mais higiênica. Historicamente, o saneamento básico era muito pior do que hoje, sendo a água o principal meio de contaminação de diversas doenças. O que levou Louis Pasteur, inventor da microbiologia moderna, a afirmar que o vinho era “a mais higiênica de todas as bebidas”.

É sabido que desde o começo de 1800 até a Segunda Grande Guerra, nos anos de 1940, especialistas em saúde recomendavam matar a sede com a mistura de água e vinho. Já nos anos de 1980, com o famoso estudo do Paradoxo Francês, vimos o hábito de tomar vinho de outra maneira, pois as comprovações científicas começaram a aparecer de forma mais consistente.

Recentemente foi publicado na revista Science o estudo feito pela cientista holandesa Alexandra Zhernakova. Nele foi demonstrado que o consumo do vinho influencia na composição das bactérias intestinais, e uma delas, teria efeito anti-inflamatório para o sistema digestivo. O que poderia ajudar no combate às doenças do intestino, por exemplo.

Em 2012 o estudo do cientista americano Neil Shay observou que um ácido presente nos vinhos – ácido elágico – ajuda a reduzir a gordura no fígado. Agora a curiosidade: somente os vinhos que passaram por maturação em barricas apresentam o tal ácido. É o carvalho que transfere essa substância para o vinho, e quanto mais tempo de envelhecimento, maior a quantidade de ácido.

Nossa fisiologia muda de pessoa a pessoa e como não há uma regra geral, serão necessários muitos estudos pela frente. O que sabemos hoje, com mais clareza, é que o vinho possui um poderoso antioxidante, colabora na digestão (como todo alimento fermentado) e tem álcool. Como toda bebida alcoólica, seu consumo é polêmico. Estudos relacionam um consumo moderado com benefícios para a saúde, enquanto outros (também científicos) são muito mais relutantes à essa afirmação.  O que nos força a dizer que, em se tratando de álcool, a quantidade é que faz a diferença.

paradoxo frances vinho e coração

Paradoxo Francês: vinho e coração

A expressão Paradoxo Francês apareceu pela primeira vez na publicação da Organização Internacional do Vinho e da Vinha em 1986. Três anos mais tarde, foi publicado o livro The french paradox antioxidants do professor George Riley baseado nos estudos do médico cientista francês Serge Renaud. Em 1991, ele próprio apresentou suas conclusões no programa 60 Minutes da TV americana. Nos anos seguintes, o consumo do vinho nos EUA cresceu vertiginosamente.

O paradoxo vem da constatação de que, mesmo com uma dieta rica em gorduras como queijos e outros alimentos, a população francesa apresentava (naquela época) um nível de colesterol abaixo de muitos outros países que consumiam menos gorduras. Ficou a dúvida: ou a gordura não é um fator tão preponderante nos altos índices de colesterol, ou havia algo a mais na dieta francesa que pudesse inibir sua ação.

Esse algo foi identificado como sendo o vinho. Desde então, cientistas do mundo todo procuram esclarecer a hipótese. As conclusões não são definitivas, mas nos levam a crer que sim, os benefícios do consumo do vinho existem.

A mais evidente é a sua influência na prevenção das doenças cardiovasculares. O vinho tem ação antiplaquetária, ou seja, inibe as placas de gordura que entopem as veias do coração.

Outros estudos ligaram o hábito moderado de consumo do vinho ao combate a vários tipos câncer, como o de próstata, ovário, pulmão etc. Porém esses estudos ainda são inconclusivos.

Antioxidantes no vinho

Esse é o mais celebrado benefício do vinho: combater a oxidação (envelhecimento) das células. A oxidação é natural e libera radicais livres, que numa reação em cadeia podem matá-las. A própria oxidação controla esse estrago através dos antioxidantes, como os polifenóis. Esses compostos estão presentes em muitos alimentos como o suco de uva, e principalmente nos vinhos tintos. Dentre eles, o resveratrol é o destaque, pois ajuda a controlar o colesterol ruim. Dados clínicos em humanos vêm ao longo das últimas duas décadas comprovando os estudos de laboratório.

Realmente os vinhos mais escuros e que passaram por carvalho possuem mais antioxidantes. Mas e os vinhos brancos? Há poucos estudos sobre eles ainda, mas um contraponto ocorreu em 2006, com uma pesquisa da Escola de Medicina de Connecticut (EUA), que concluiu que as substâncias benéficas viriam da polpa da uva – os vinhos brancos são feitos somente com a polpa – e não apenas das cascas, que dão cor aos vinhos.

Outros dados científicos apontam a atuação dos compostos fenólicos na prevenção de algumas doenças neurodegenerativas, entre elas o Mal de Alzheimer.

É importante ressaltar que os maiores benefícios do vinho são notados quando as pessoas estudadas também possuem uma alimentação saudável. Ou seja, o potencial benéfico da bebida anda junto com outros hábitos saudáveis que já são conhecidos por todos.

Conclusão: beber moderadamente, mas quanto?

Como não somos clones uns dos outros, a relação de álcool e organismo varia. O álcool estimula os neurotransmissores, liberando serotonina e dopamina, causando euforia, bem-estar e está associado aos sentimentos de prazer. Seu uso social está presente desde os primórdios da civilização. Não é nosso objetivo aqui, abrir um debate amplo e importante sobre o consumo de álcool. Mas é interessante notar que os excessos são prejudiciais em quase tudo na vida. Porém, isso não anula os benefícios do vinho quando consumido de forma moderada.

Buscar o bem-estar e curtir as coisas boas da vida é uma decisão racional e pessoal. Atividade física e um consumo moderado do vinho é o maior teste para aprender a equilibrar os hábitos. Apreciar o vinho e receber seus benefícios faz parte de um estilo de vida saudável. Ficamos com a máxima de que “a dose é o que diferencia o remédio do veneno”.

Ah…se você quiser uma definição para moderado, talvez deva seguir as recomendações da Organização Mundial da Saúde.

  • Mulheres: até 2 doses/dia – equivalente a 240 ml;
  • Homens: até 3 doses/dia – equivalente a 360 ml.

O que acha?

Até breve!

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espanha vinho crianza reserva gran reserva

Vinho espanhol Crianza, Reserva, Gran Reserva e outras classificações.

Até o início dos anos 2000, a classificação dos vinhos na Espanha era relativamente simples, pois focava apenas no tempo de envelhecimento das bebidas. Nos rótulos eram estampados Vinho Crianza, Reserva ou Gran Reserva. Seguindo as normativas da União Europeia e uma tendência mundial, novas leis foram estabelecidas. Então, vamos conhecer melhor o que compramos?

Regulamentação Europeia dos vinhos

A Espanha não é o maior produtor de vinhos, mas é o país com maior área plantada de vinhas no mundo. Rioja é a região mais famosa e em 1933 foi a primeira a ter uma Denominação de Origem no país.

Ao lado de França e Itália, o país tem um protagonismo no cenário da vitivinicultura tradicional. No entanto, mesmo sendo vizinhos, esses países têm suas peculiaridades e, às vezes, visões diferentes sobre os vinhos. Na França, por exemplo, o terroir é o elemento principal e a ligação com a terra um pressuposto para os bons vinhos. Essa ótica tem influenciado países do mundo todo desde o começo do século passado, mas na Espanha, além da denominação de origem, o envelhecimento do vinho ganha destaque.

Não temos hoje – e talvez nunca teremos – regras mundiais de classificação do vinho, porém, desde a criação da União Europeia, existe um esforço para uma normatização que garanta as características de cada país.

Antes de 2011, os selos de classificação adotados pela UE eram: VQPRD (Vinho de Qualidade Produzido em um Região Específica) e Vinhos de Mesa. Sob esse guarda-chuva abrigava as muitas denominações de cada país. As regras mudaram e atualmente são: DOP (Denominação de Origem Protegida) e IGP (Indicação Geográfica Protegida). Essa mudança ocorreu principalmente para que o selo pudesse ser usado para outros produtos além do vinho e tirar a conotação negativa das palavras “vinhos de mesa”.

selo uniao europei classificacao vinhos
Selos da União Europeia para classificação dos vinhos.

Classificação do vinho espanhol

Até 2003 a Espanha classificava seus vinhos, principalmente, pelo seu envelhecimento nas barricas e garrafas. A primeira é chamada de maturação oxidativa (que permite uma micro-oxigenação pelas barricas de carvalho) e depois de engarrafados, a redutiva (evolução de aromas dentro da garrafa). As denominações de envelhecimento são:

Vinho Crianza – quando falado em língua portuguesa, a denominação vinho crianza pode gerar alguma confusão. Mas em espanhol, como podemos comprovar até no dicionário de Oxford, crianza significa criação, educação. É um detalhe importante porque é um tipo de vinho muito diferente dos chamados vinhos jovens que são colocados no mercado no mesmo ano ou no ano seguinte. O vinho crianza passa por um estágio de envelhecimento total  de 24 meses – sendo que destes, ao menos 6 meses são em barricas – com o objetivo de ganhar maior complexidade de aromas e sabor. O restante do tempo é maturado na garrafa.

Vinho Reserva – o tempo total de envelhecimento é de 36 meses, sendo no mínimo 12 em barricas de carvalho e o restante na garrafa.

Vinho Gran Reserva – obrigatoriamente passa por uma maturação de 60 meses, sendo um mínimo de 18 meses em barris de carvalho e o restante na garrafa.

Com a reformulação da Lei da Vinha e do Vinho de 2003, a classificação ficou mais complexa. Para entender os rótulos, além das denominações de envelhecimento, temos outras que são divididas em:

  1. DOCa (Denominación de Origen Calificada) – é o nível mais alto da classificação junto com a VP (Vino de Pago). O termo Calificada significa que os vinhos são de alta qualidade e garantidos. Têm este selo apenas as regiões de Rioja e Priorat.
  2. DO (Denominación de Origen) – além de sua origem geográfica, essa denominação indica que o vinho possui um estilo que segue regras de produção. Inclui uma gestão das vinhas (castas permitidas, rendimento por planta, etc) e técnicas de vinificação.
  3. VP (Vino de Pago) – São vinhos de alta qualidade, muitas vezes de vanguarda, mas que não se enquadram na DO. Isso pode acontecer de duas formas: se a vinícola estiver fora de uma indicação geográfica, a propriedade ganhará o título de Vino de Pago; outro caso é quando o vinho é elaborado fora das regras de produção, mas possui excelente qualidade, então será Vino de Pago Calificado.
  4. VC (Vino de Calidad con Indicación Geográfica) – essa pode ser compreendida como uma categoria de transição. São vinícolas que estão em ascensão para níveis mais altos de qualidade, mas que ainda não podem ser considerados DO.
  5. VT (Vino de la Tierra) – nessa denominação, o vinho é visto apenas pela ótica da terra de origem, e não pela qualidade e processos produtivos. É um termo mais genérico e flexível, que não restringe castas, mas que determina limitações sobre o rendimento das vinhas.

Conclusão

Mesmo quando um vinho não corresponde exatamente às nossas expectativas, as classificações criadas por cada país são de grande valia em nossas escolhas. Até em países como Chile e Argentina, que não possuem regras e leis tão rígidas como as europeias, aproveitam dessa nomenclatura mundial espanhola.

Independente se é um vinho Crianza, Reserva ou Gran Reserva, o que importa é tê-los sempre por perto; assim como os amigos. Salud!

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uva carmenere da frança para chile

Uva Carménère: de Bordeaux para os vinhos chilenos.

A uva Carménère é originária de Médoc, região de Bordeaux, na França, mas está tão associada ao Chile que podemos dizer que ela se “naturalizou” chilena. Por mais de um século ela foi dada como extinta. Depois de redescoberta, nos anos 1990, foram os vinhos chilenos que compreenderam de forma tão maravilhosa essa casta francesa.

A redescoberta da Carménère ou Grande Vidure

A presença de vinhedos em território francês conta milhares de anos. Na época do Renascimento (séc XIV) existiam duas castas muito usadas na produção dos vinhos: Vidure e Grande Vidure – essa segunda considerada bem maior que a primeira.

Ao longo das décadas, o nome da casta Vidure foi mudado para Carmenet ou Cabernet. Sua origem era o norte da França, terra dos chamados Francos, portanto ela ficou conhecida como Cabernet Franc. A Grande Vidure também teve seu nome alterado para Carménère, derivado de carmim, ou vermelho intenso.

A situação mudou radicalmente em meados da década de 1860, devido a devastadora crise da Filoxera – praga que assolou a Europa – quando os vitivinicultores tiveram que destruir suas vinhas e recomeçar os plantios a partir de mudas novas.

Apesar dos vinhos feitos com a Carménère serem bastante apreciados, as videiras possuíam um baixo rendimento. Isso fez com que ela fosse esquecida e substituída por outras castas.

Passou-se praticamente todo o século XX sem que ninguém ouvisse falar de seu paradeiro e a comunidade de enólogos, estudiosos e apreciadores a consideravam extinta.

Voltando um pouco na história, em 1800, navios com mudas de Merlot chegaram ao Chile. Em 1850, Christian Lanz criou a Viña CarmenCarmen em homenagem a sua esposa – na região de Alto Jahuel, no Vale do Maipo.

Viña Carmen chile
Viña Carmen no Chile.

Durante mais de um século, a vinícola acreditava que seus vinhedos eram apenas da casta Merlot, mas em 1994 o ampelógrafo francês Jean-Michel Boursiquot estranhou o fato de algumas plantas insistirem em frutificar tardiamente.

Levou suas folhas para exames e descobriu o improvável: era uma Carménère. As folhas de Carménère e Merlot são muito parecidas e um equívoco na escolha das vinhas, muitos anos atrás, fez com que a Carménère sobrevivesse em meio as videiras de Merlot.

vale-do-maipo-chile
Vale do Maipo, Chile.

Foi um marco na história da vinicultura que ganhou as manchetes nos jornais mundiais.

Em 1996 foi o primeiro lançamento de um vinho após a redescoberta e o rótulo estampava: Grande Vidure.

Apesar da alegria geral, o nome Grande Vidure incomodava os europeus – principalmente a França – e anos mais tarde, após vários debates políticos, foi decidido que importações de vinhos chilenos que estampassem o nome Grande Vidure, seriam proibidas. Desde então, todos a chamam de Carménère.

O Chile vem trabalhando a relação da cepa com seu terroir de forma impressionante. Na França ainda é pouco cultivada, mas em outras partes do mundo como Friuli (norte da Itália), Califórnia, Nova Zelândia e Austrália resolveram investir na renascida casta.

Ampelografia-estudo videiras
Ampelografia é o estudo e a classificação das partes das videiras, como caule, frutos e folhas.

Características da uva Carménère

A uva Carménère possui uma pele de coloração escura e sua principal característica é o amadurecimento tardio. Exige muito sol e um verão quente para mostrar todo seu potencial. Os vinhos reafirmam as cores marcantes e sabores intensos e costumam apresentar taninos mais suaves do que a Cabernet Sauvingnon. Frequentemente é usada em assemblages (mistura de variedades de uva na elaboração do vinho).

Harmonização

Quando elaborado com maestria, os vinhos varietais de Carménère possuem boa estrutura e a presença marcante de frutas vermelhas. Harmonizados com carnes vermelhas, churrascos ou assados em geral, proporcionam uma experiência gastronômica espetacular.

Agradecemos Jean-Michel Boursiquot pela curiosidade e perspicácia inerente aos cientistas e também ao maior protagonista dessa história toda: o acaso!

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doc vinho verde - região dos vinhos verdes

Vinho Verde é uma região, e não um estilo.

Ao contrário do vinho laranja, o vinho verde não é verde. Portanto, ele não é um estilo de vinho. Existem vinhos verdes brancos, tintos, rosés, e mais recentemente, espumante vinho verde. A confusão tem origem devido a uma tradição de vinificação que grande parte dos produtores de vinhos verdes prefere deixar no passado. Afinal, muita coisa mudou nos últimos 40 anos na região dos Vinhos Verdes de Portugal.

Vinho verde é uma região demarcada

Em 1908 os portugueses demarcaram a região do Vinho Verde que se transformou numa DOC – Denominação de Origem Controlada. Anos depois, em 1926, foi criada a Comissão de Viticultura da Região dos Vinhos Verdes (CVRVV) para controlar a produção regional. Mas foi somente em 1986, com uma reformulação nas regras, tanto no cultivo das vinhas como na vinificação, que os processos de produção se tornaram mais rígidos.

A região do Vinho Verde fica no noroeste do país, na província do Minho. Possui muitas montanhas entrecortadas pelo rio Minho. O solo é arenoso formado por placas de granito desagregadas e contém alta acidez. Essa é a única no mundo que pode ser designada como produtora de vinho verde. Uma exclusividade aceita e registrada pela OMPI Organização Mundial da Propriedade Industrial em 1973, em Genebra.

Historiadores afirmam que os vinhos verdes foram os primeiros vinhos portugueses a serem exportados e reconhecidos fora do país. Isso aconteceu no século IX, principalmente pela Inglaterra.

região dos vinhos verdes de portugal
DOC – Denominação de Origem Controlada na Região dos Vinhos Verdes e suas sub-regiões.

A região do Vinho Verde está dividida em 9 sub-regiões: Amarante, Ave, Baião, Basto, Cávado, Lima, Monção e Melgaço, Paiva e Sousa.

Uma observação interessante é que se uma vinícola quiser especificar no rótulo a sub-região em que o vinho verde foi elaborado, ela deve usar as castas recomendadas para essa respectiva sub-região.

Mas, por que verde?

No começo do texto falamos que os produtores gostariam de esquecer a origem do nome. Bem, primeiro vamos à versão oficial repetida por muitos e, convenhamos, tem sua originalidade. Os vinhos verdes possuem esse nome porque é a região mais verdejante do país. Com alto níveis de chuva e muitas árvores, a paisagem (realmente muito linda) se mostra como um manto verde sobre as montanhas e vinhedos.

Esse elogio se confirma – segundo a versão oficial – principalmente porque as vinhas das propriedades eram plantadas em simbiose com as outras plantas locais – em condução vertical da vinha – e com isso, formavam verdadeiros paredões verdes.

vinhedos das regioes vinhos verdes
Bela paisagem verdejante dos Vinhos Verdes.

Isso tudo é verdade, apesar que nos dias de hoje, com a modernização dos processos, os vinhedos não são mais cultivados dessa maneira.

Agora a outra versão. Não se pode negar que o nome vinho verde vem do fato da população local usar uvas ainda verdes na produção dos vinhos. Isso mesmo, as uvas não eram maturadas o suficiente antes da colheita. Essa verdade pode ser comprovada quando observamos a legislação portuguesa de 1946, que dividia os vinhos entre verdes e maduros. Ainda hoje, muitos agricultores usam essa terminologia para diferenciar vinhos.

Os vinhos elaborados dessa forma traziam muito frescor, muita fruta, alta acidez (devido ao ácido málico) e baixo teor alcoólico, pois os açúcares ainda não haviam se desenvolvido. Também não passavam por grandes estágios de maturação em barris, e por isso, eram refrescantes e fáceis de beber, sem grande complexidade.

Porém, a partir dos anos 1960 e 1970, os novos processos trouxeram mudanças benéficas para a região. Seus vinhos continuam tendo um frescor característico do terroir do Minho, mas os avanços os deixaram mais sábios. Hoje, além dos vinhos jovens, temos vinhos verdes mais elaborados, que fazem estágio em barris de carvalho antes de saírem das adegas.

Castas da região do Vinho Verde

As principais uvas dos vinhos verdes são autóctones, ou seja, nativas do país. São suas qualidades únicas que trazem aquela tipicidade tão admirada pelos amantes do vinho. Entre elas se destacam:

Alvarinho – considerada a mais nobre das uvas brancas de Portugal.

Loureiro – presente em quase toda a região do vinho verde, suas plantas costumam ter alto rendimento por hectare. Apesar disso, tem demonstrado uma qualidade superior.

Arinto – também chamada de Pedernã, essa casta tem uma característica cítrica muito apreciada nos vinhos feitos a partir de blends. Um corte tradicional do vinho verde é o blend entre  Arinto, Loureiro e Trajadura.

Outras castas brancas da região: Avesso, Azal, Fernão Pires, Trajadura.

Tintas: Amaral, Borraçal, Espadeiro, Padeiro e Vinhão.

casta alvarinho do vinho verde
A casta Alvarinho é considerada a mais nobre das brancas portuguesas.

Conclusão

Mesmo com a evolução dos vinhos verdes, o terroir dessa belíssima região de Portugal está cada vez mais presente. Como apreciadores de vinhos de todas as partes do mundo, resta-nos abrir a garrafa e nos transportarmos para as montanhas do Minho. E se nossa alma portuguesa falar mais alto, podemos nos aproximar desse querido povo, ouvindo um sucesso de 1977, interpretada por Paulo Alexandre (hoje com 85 anos) que homenageia o vinho verde.

“Vamos brindar

Com vinho verde que é do meu Portugal

E o vinho verde me fará recordar

A aldeia branca que deixei

Atrás do mar”

Música: Verde Vinho  •  Intérprete: Paulo Alexandre

Link do Youtube: https://goo.gl/XgnbcL

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vinho chateau petrus pomerol

Vinho Château Petrus: uma lenda insuperável

Ele é chamado pelos enófilos de Rei Petrus; um rei sem castelo. Na propriedade Château Petrus não há um château, apenas uma construção camponesa simples de dois andares. A vinícola produz somente um vinho, e se a safra não estiver no padrão exigido, simplesmente não se produz nada no ano. Um vinho que não possui uma classificação oficial, nem é rotulado como Grand Cru. Apesar disso, figura em todas as listas dos melhores do mundo e os seus preços alcançam às alturas em leilões. Como é possível? Apresentamos a história de uma lenda: o Petrus de Pomerol.

vinhedos no chateau petrus
Vinhas da casta Merlot no Château Petrus.

O boutonnière Pétrus e sua argila azul

Pomerol é uma sub-região de Bordeaux. Os vinhedos do Petrus estão localizados em um platô no lado oriental. Toda Pomerol é constituída de cascalho, argila e areia, mas a região do Petrus é única, pois é uma colina de argila. Normalmente um solo com essas características busca a estabilidade na direção mais baixa do terreno. Mas não é o que acontece com o Château Petrus.

Seus 11,5 hectares, a 40 metros do nível do mar, estão no coração do chamado boutonnière Pétrus ou botão Petrus. Um solo único formado por 3 camadas. A primeira de cascalho, a segunda de um tipo muito denso e escuro de argila com a presença de bastante matéria orgânica; e uma terceira de argila azulada. É essa última – somente presente na propriedade Petrus – que faz toda a diferença. Na mineralogia, esse tipo de argila é classificada como esmectita, e não há nenhum vinhedo no mundo plantado sobre um terreno semelhante ao dessa pequena região de Pomerol.

Os romanos a chamavam de petrus (rocha), pois quando seca, a argila é tão dura quanto uma pedra. Estima-se que tenha 40 milhões de anos. Outra característica única nessa argila azul é a alta concentração de óxido de ferro.

solo argila azulada de chateau petrus
O Botão Petrus – subsolo composto de argila azulada.

Sabemos que a argila é formada por minúsculos cristais granulados de origem rochosa. No caso do Petrus, a argila azul endurece de tal forma que as vinhas são impedidas de aprofundar suas raízes. Isso acelera a produção concentrada de frutos, que se beneficiam da alta umidade retida por essa argila. Aliada aos cuidados meticulosos com as vinhas, o resultado são uvas com altos teores de tanino e qualidades insuperáveis.

Se o Pomerol é conhecido por ser território da variedade Merlot, o Château Petrus é sua principal morada. Pela complexidade e exuberância alcançada, costuma-se dizer que o sonho de toda Merlot é se tornar um Petrus. Apesar disso, em algumas safras pode conter uma pequena porcentagem de Cabernet Franc (tipicamente até 5%).

Como já vimos anteriormente, um terroir é a soma de características locais combinadas. Em Bordeaux, os fatores mudam expressivamente em poucos hectares. A altitude, a drenagem natural feita pelos cascalhos, a capacidade de um solo argiloso de reter água, as luzes solares refletidas pelas rochas, entre outras qualidades, fazem da região um complexo ecossistema para a vitivinicultura. Nesse cenário, a argila azul do Petrus é mais uma benção de Baco.

A ascensão do Château Petrus

A fama mundial do Château Petrus elevou a pequena região de Pomerol ao mesmo nível dos produtores da margem esquerda mais famosa, a região de Médoc. Mas isso só aconteceu durante um passado bem recente.

A propriedade onde está o Petrus pertencia a família Arnaud desde 1770, mas sem grande destaque na produção de vinhos. Tudo mudou em 1863, com a crise da filoxera. Uma praga (pulgão) invadiu a França, possivelmente através dos navios vindos da América, e devastou grande parte das vinhas de Bordeaux.

Os vinhedos foram todos replantados, e em 1878, o Petrus chamou a atenção por ganhar a medalha de ouro no Concurso Internacional de Paris. Seu preço subiu e rivalizou com os melhores do Médoc.

Em 1917, a família Arnaud formou a La Société Civile du Château Petrus e as ações da vinícola foram colocadas à venda.

A viúva do Hotel Loubat de Libourne, a madame Marie-Louise Loubat, adquiriu algumas dessas ações e com o passar dos anos aumentou sua participação. Em 1940 tornou-se a única proprietária.

Como não tinha filhos, após sua morte em 1961, sua sobrinha Lily Lacoste-Loubat herdou a propriedade.

Nessa época, Lily formou uma parceria com o negociante de vinhos Jean-Pierre Moueix, na qual ele ficaria responsável por expandir as vendas. Com um mercado interno concorrido, Moueix se voltou ao crescente mercado americano. Isso ficou mais fácil após a extraordinária safra de 1945.

Em 1956, fortes geadas arrasaram os vinhedos, e ao contrário das vinícolas vizinhas, a decisão do Château não foi o replantio, e sim, um corte profundo nas plantas, com o objetivo de que as próprias se recuperassem. Após uma espantosa recuperação, as velhas vinhas  foram mantidas e renasceram mais fortes que nunca. Começou, então, o reinado do Petrus.

O vinho caiu no gosto do clã americano mais famoso da América, os Kennedys. John Kennedy, por exemplo, confessou que era um dos seus vinhos preferidos.

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O lendário Château Petrus, na região de Pomerol, Bordeaux.

No início dos anos 1960, o revolucionário Émile Peynaud prestou algumas consultorias para o Château Petrus, mas foi com a chegada em 1964, do enólogo Jean-Claude Berrouet que o trabalho ganhou consistência.

Em 1969 Moueix assume como principal proprietário e faz a aquisição do vizinho Château Gazin.

A fama do vinho atinge um patamar único no mundo dos vinhos quando em 1982, o renomado crítico Robert Parker classificou-o sucessivamente com notas altíssimas. Desde então, o Rei do Pomerol se tornou um vinho raro e muito caro.

Em 1987, aconteceu um fato curioso, para não dizer radical: após um verão extremamente quente, as chuvas vieram e trouxeram um excesso de umidade que comprometeria a qualidade das uvas. Foram chamados helicópteros (sim!) para sobrevoar a plantação e assim ajudar na secagem.

Como o Château Petrus produz apenas um vinho de altíssima qualidade, nos anos em que as frutas estão comprometidas, simplesmente não são produzidos vinhos. A última vez que isso aconteceu foi em 1991.

Em 2008, o filho de Jean-Claude Berrouet, o também enólogo Olivier Berrouet, então com 33 anos, assumiu a frente dos trabalhos e realizou diversas modernizações nas adegas do Château Petrus.

Após a morte de Jean-Pierre Moueix, em 2003, seu filho Jean-François Moueix herdou a propriedade, e junto com sua família, é o atual dono do Château Petrus.

Vinificação do Petrus

Os métodos de vinificação do Petrus não são diferentes de muitos outros produtores de Bordeaux. Mas o cuidado com cada detalhe, mostra a seriedade e a paixão na elaboração de vinhos excepcionais.

O Château Petrus foi pioneiro ao adotar a técnica de éclaircissage, quando no início da frutificação, alguns frutos são estrategicamente cortados para que a planta concentre suas forças nos frutos restantes.

A colheita é feita manualmente e os bagos cuidadosamente separados. Em seguida, uma parte do mosto vai para os tanques de concreto com temperatura controlada por 18 a 25 dias para a fermentação alcoólica. Depois dessa etapa, é feita a fermentação malolática e o processo continua apenas com a clarificação (o Petrus nunca passa por filtração).

O vinho, então, segue para uma maturação em barris de carvalho francês novos por 18 a 20 meses.

Os sucos rejeitados durante o começo da vinificação são vendidos como produtos simples de Pomerol, mas ninguém sabe muito bem para onde; este é um dos segredos mais bem guardados de Bordeaux.

A complexidade alcançada pelo Petrus é realmente impressionante. Os felizardos que já degustaram algumas das melhores safras, descrevem-no como dono de uma textura sedosa nunca igualada por qualquer outro. Um bouquet riquíssimo e extremamente potente de especiarias, café, canela, trufas, chocolate, cerejas e ameixas.

Por que o preço do Petrus é tão alto?

O Château Petrus se transformou em um ícone mundial. Nos leilões, seus preços atingem cifras astronômicas, encorajando as falsificações. Ano após ano, ele permanece na lista dos melhores do mundo, como confirma a lista dos vinhos mais caros de 2016 do site Wine Searcher.

A produção é considerada baixíssima; são produzidas apenas de 30 a 50 mil garrafas por ano. Cerca de 40% das garrafas ficam na França e o restante é “dividido” principalmente entre americanos, alemães, ingleses, e ultimamente, asiáticos. Com uma demanda muito acima da oferta, seus preços continuam a subir. Menos por vontade imperiosa dos donos e mais pelos investidores famintos por lucro.

Apesar do próprio enólogo da casa, Olivier Berrouet, destacar as safras de 1975, 1982, 1990 e 1995, todos sabem que independente do ano, um Château Petrus é sinônimo de excelência na elaboração de um vinho.

Vida longa ao Rei do Pomerol, pois seu reinado está longe de acabar.

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vinhos biodinamicos e vinhos organicos

A diferença entre vinhos orgânicos e biodinâmicos.

Os métodos usados na produção dos vinhos orgânicos são facilmente compreendidos. Têm suas raízes na agricultura menos invasiva, com restrições de agentes químicos. Porém, quando debatemos sobre os controversos vinhos biodinâmicos, as dúvidas e as certezas se confundem. Quais as diferenças? Vamos entender:

Vinho orgânico

Os pesticidas, como o enxofre, por exemplo, são usados há mais de 2.500 anos pelos Sumérios. Temos registros do uso de arsênio, chumbo e mercúrio, no século XV e sulfato de nicotina no século XVII. Sempre com o objetivo de acabar ou diminuir as pragas na agricultura.

Com a industrialização e os avanços científicos posteriores, eles invadiram as plantações e a partir de 1950 se tornaram protagonistas na produção em massa de alimentos.

Dito isso, lembramos que a partir das décadas de 1960 e 1970 houve um movimento – não apenas dos hippies – de retorno para um estilo de vida mais natural, que pregava, entre outras coisas, a proibição de qualquer intervenção química na agricultura. Foi nessa época que os vinhos orgânicos começaram a ser produzidos, intencionalmente, sem o uso de herbicidas sintéticos, pesticidas, fungicidas e fertilizantes.

Os preceitos da filosofia orgânica também defendem a proibição de qualquer tipo de organismo geneticamente modificado, inclusive uvas.

As regulamentações governamentais sobre a viticultura orgânica não são fáceis de serem implantadas. Contudo, a defesa dos orgânicos cresce a cada dia. Isso fez surgir inúmeras certificações “verdes”, chanceladas por organizações privadas ou órgãos públicos.

Na Europa, o que conta num rótulo de vinho é o selo da União Europeia, criado em 1 de julho de 2010 para regulamentar os produtores orgânicos e agroecológicos, também chamados de produtores biológicos.

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Selo de Certificação de um produto orgânico na União Europeia.

É importante ressaltar que um produtor pode ter as uvas cultivadas organicamente e certificadas, mas nem por isso o produto terá o selo de biológico (orgânico) no vinho. Para que uma vinícola possa inserir esse selo em seus rótulos, ela precisa cumprir uma série de rígidos processos, como limites na adição de sulfito e dióxido de enxofre. Com isso, o que encontramos na prática são muitos produtores que exibem o termo “produzido a partir de uvas cultivadas organicamente”, mas que não podem utilizar o selo por não cumprir as demais exigências.

Tudo isso significa que não existe uma regulamentação mundial sobre os processos a serem usados, mas nota-se um movimento de convergência entre as instituições envolvidas em promover a cultura dos produtos orgânicos.

Vinho biodinâmico

Os defensores dos vinhos biodinâmicos dizem que são estes que melhor expressam o verdadeiro terroir porque são elaborados de forma holística. O objetivo, antes de tudo, é ter o solo rico em nutrientes e um ecossistema equilibrado. Ou seja, buscam elaborar o vinho usando apenas os recursos naturais do próprio local.

A palavra biodinâmica significa bio (vida) e dinâmica (energia). Seus adeptos possuem uma visão de que tudo está interligado e há uma troca de energia de cada elemento na Terra (o que, de certa forma, a ciência não nega). Porém, para os vitivinicultores biodinâmicos é necessário seguir à risca o conceito de integração e não somente abolir os fertilizantes e pesticidas. Seus vinhedos são cultivados de acordo com calendários lunares utilizando adubos orgânicos e além de incentivarem a biodiversidade local, aplicam fielmente as controversas preparações biodinâmicas.

As ideias de uma agricultura biodinâmica foram proferidas pela primeira vez em 1924 pelo filósofo alemão Rudolf Steiner. Anos mais tarde, em 1932, foi fundada na Alemanha a organização Demeter (deusa da terra para os gregos), a fim de difundir o conceito de agricultura biodinâmica. O conceito de plantações auto-suficientes, aos poucos, foi se espalhando mundo afora e hoje está presente em muitos países, inclusive no Brasil através do IBD Certificações.

Na França, algumas célebres vinícolas vêm aderindo à filosofia biodinâmica como a Domaine Leroy, na Borgonha e o Château de la Roche aux Moines, no Loire.

As preparações biodinâmicas

Os preceitos biodinâmicos englobam instruções como calendários lunares e estelares, adubos orgânicos enterrados em chifres de boi, etc. São essas técnicas que geram as principais críticas.

Porém, segundo o IBD, para se obter a certificação para um vinho biodinâmico, basta cumprir as seguintes diretrizes:

  • Considerar a fazenda – e não somente as vinhas – como uma individualidade integrada;
  • Usar técnicas de conservação de solo;
  • Não utilizar de fertilizantes químicos e agrotóxicos sintéticos. O controle deve ser feito apenas com produtos naturais;
  • Defender e conservar a natureza local;
  • Tratar o solo com os preparados biodinâmicos que visam dar vitalidade para as vinhas e outras plantas que compõem o ecossistema;
  • Não fazer uso de produtos transgênicos;
  • Buscar os benefícios sociais da produção.

Conclusão

Mesmo que haja debates acalorados sobre os vinhos orgânicos e biodinâmicos, em um ponto todos concordam: é importante a humanidade encontrar maneiras sustentáveis de produzir seus alimentos. O vinho está entre nós há milênios e ouvir o que os vitivinicultores têm a dizer é fundamental. Até o momento, seus depoimentos são otimistas. Seus vinhos se mostram de alta qualidade e com aromas de frutas evidentes que traduzem um legítimo terroir. Pois bem, munidos de nossas taças, vamos segui-los de perto!

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vinhos fortificados e vinhos-de-sobremesa

Para finalizar: os vinhos de sobremesa!

Se fizermos uma lista que contenha as principais coisas boas da vida, certamente a gastronomia estará presente. E para muitos, as sobremesas estariam em destaque. Elas são o gran finale depois de uma bela refeição. Melhor ainda se acompanhadas dos vinhos licorosos ou vinhos de sobremesa.

Definição de vinhos de sobremesa

Vinho é toda bebida fermentada de uvas, especificamente, uvas viníferas. Contudo, a rica e milenar tradição da vitivinicultura nos deu uma gama de conceitos e maneiras diferentes de produção. Não há regras mundiais para uma classificação, mas o objetivo antes da elaboração do vinho de sobremesa, é que ele tenha níveis mais altos de açúcar.

Chamamos de vinho de sobremesa porque eles harmonizam muito bem com elas, mas a denominação correta seria vinho doce (fortificado ou licoroso).

Tipos de vinhos doces

Em níveis que variam de pouco até extremamente baixo (menos de 2 gramas por litro), todos os vinhos contém o açúcar residual do processo de fermentação. Mas no caso do vinho elaborado com a finalidade de aperitivo ou para ser consumido junto à sobremesa, a concentração é muito maior. Pode chegar tranquilamente a 250 gramas por litro. Vejamos as maneiras para aumentar o nível de açúcar de um vinho:

1 – Doçura natural – todo fruto contém açúcar, e quanto mais maduro, maior será a doçura contida nele. Uma das soluções para que os vinhos sejam mais doces é a colheita tardia. Ou seja, o fruto é deixado maturar até o limite antes do apodrecimento, quando os níveis de açúcar são altos o suficiente para que o resultado final seja um vinho doce mesmo depois da fermentação. Essa técnica é tão antiga que já foi citada pelo poeta Virgílio, durante o reinado do primeiro imperador romano Augusto.

2 – Adições de açúcar ou mel – nesse método o doce provém do açúcar (ou mel) adicionado durante os processos fermentativos. Podem ser:

  • Chaptalização – os romanos já adicionavam mel no vinho, mas somente após os estudos do químico Jean-Antoine Chaptal, no começo do século IX, que o método foi incorporado na cultura da vinificação. Se trata da adição de açúcar antes da fermentação do mosto de uva, o que faz com que as leveduras produzam mais álcool e o nível de açúcar residual aumente. Ainda existem controvérsias sobre a chaptalização, porque produtores mal-intencionados usavam essa técnica para mascarar vinhos ruins e mal elaborados. Por isso, hoje em dia, na maior parte do mundo há regras rígidas para o uso da chaptalização.
  • Süssreserve (reserva doce) – nesse método, uma porção do mosto de uvas não fermentado, que contém principalmente glicose e frutose, é acrescida após a fermentação. A glicose fermenta mais rapidamente, fazendo com que o vinho no final tenha um sabor adocicado, originado, em sua maior parte, da frutose adicionada.

3 – Fortificação – para os vinhos fortificados o processo é diferente: ocorre a adição de um destilado alcoólico (na maioria das vezes do próprio vinho) como o conhaque e a grappa. Essa adição pode ser feita antes, durante ou depois da fermentação do mosto. Se adicionado no final, o resultado será um vinho mais seco e posteriormente receberá o açúcar. Acrescido no começo do processo, os níveis altos de álcool matam as leveduras e o processo de fermentação cessa, permanecendo o açúcar residual da própria fruta. Exemplos clássicos desse tipo são: vinho Madeira (Ilha da Madeira), Porto, Jerez ou Xerez (Sherry), Marsala, etc.

4 – Remoção de água – quando reduzimos a água da fruta há um aumento da concentração do açúcar. Isso pode ser feito da seguinte forma:

  • Ar seco – ao armazenar as frutas em ambiente seco, elas se transformam em uvas passas que depois são vinificadas. Chamados de passitos, esses vinhos eram conhecidos antes mesmo dos romanos nas regiões como o norte da Itália, Grécia e nos Alpes da França.
  • Gelo – em ambientes muito frios (até 7 graus negativos), uma parte da água contida na uva é congelada e os açúcares ficam concentrados no sumo restante. Usando uma técnica complexa de prensagem e leveduras especiais, e após um longo processo de fermentação, temos um vinho muito doce, porém equilibrado pela acidez. Destacam-se os vinhos alemães feitos dessa maneira e chamados de ice wine ou eiswein (em alemão).
  • Umidade – em climas mais úmidos, o aumento do açúcar vem da técnica de desidratação das uvas pelo fungo Botrytis cinérea. Enquanto ele suga a água da fruta, sua interação com ela resulta em aromas agradáveis como mel e damasco. Esse método é usado em muitos vinhos famosos de Sauternes, Monbazillac e Tokaj.

Conclusão

Para cumprir seu papel e coroar uma refeição, o vinho deve ser mais doce que a sobremesa. Dependendo da escolha, até o próprio vinho pode ser a sobremesa. Se ele for muito doce, por exemplo, pode harmonizar muito bem com o leve amargor de uma amêndoa ou castanha. Portanto, experimente e se delicie: joie de vivre!

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Como acertar na hora de harmonizar vinho e comida

Basta um pequeno passeio pelo Google para encontrarmos vários sites e blogs sugerindo dicas para harmonizar vinho e comida. O objetivo é ajudar com sugestões práticas para que o leitor não perca muito tempo na procura, e encontre ali, uma resposta rápida e certeira.

Realmente, a praticidade é desejada por todos, mas quando falamos em harmonizar vinhos e comidas, não estamos falando de ciência exata. Entre os extremos do certo e errado, existem variações e nuances infinitas.

Diante de tantas informações, sugestões e conselhos, é comum muita gente ficar perdida: “Será que esse Pinot harmoniza com massa e molho branco? Não me lembro…”.

Felizmente, não precisamos guardar na memória as combinações específicas se quisermos acertar na harmonização. Aparentemente pode ser mais prático consultar e ter uma resposta imediata, mas entender os fundamentos da harmonização é, com toda a certeza, mais eficiente.

Aprender os conceitos primordiais – e são poucos – faz com que a pessoa adquira uma certa segurança nas escolhas e possa se aventurar sozinha, em novas e deliciosas surpresas.

Admirável mundo novo e gastronômico

Consumir bebidas durante as refeições é uma prática ancestral, mas quando nos referimos a equilibrar sabores e aromas, buscando explorar os sentidos, estamos falando de hábitos mais recentes de nossa sociedade. As sutilezas e o requinte na gastronomia não têm mais que dois séculos. Quando os chefs das cortes europeias, após a queda do reinado de Napoleão, começaram a inventar os restaurantes, trouxeram as técnicas e o conhecimento para as camadas inferiores da sociedade. O acesso aos pratos mais elaborados foi possível, e abriu as portas para que a gastronomia evoluísse.

Dos anos de 1980 para cá, com a surpreendente globalização, a integração entre culturas permitiu aos amantes da boa comida descobrir sabores exóticos e vinhos de terroir longínquos. Bem, sabemos que quando aumentamos as opções, o nível de possibilidades (e complexidade) aumenta consideravelmente.

Quebra-cabeça da harmonização

Apesar das controvérsias detalhistas, as bases da harmonização entre vinho e comida são sempre as mesmas. São as peças de todo quebra-cabeças. Entendê-las significa poder improvisar e arriscar. São elas:

Comida – os alimentos são inúmeros, de muitas cores e sabores; no entanto para o paladar humano, eles apresentam apenas 5 tipos de gostos: doce, salgado, ácido, amargo e umami.

Vinho – cada tipo de casta vinífera possui certas características que ficam – às vezes mais, outras menos – evidentes no vinho. Isso vai depender do terroir e principalmente dos objetivos do enólogo na produção da bebida. Ressaltamos isso porque é comum encontrar associações entre uva e prato: Cabernet harmoniza com carne vermelha, Chardonnay com carne branca, etc. Apesar dessas afirmações não estarem erradas, elas são muito simplistas. Na verdade, o que se deve levar em consideração são as características específicas daquele vinho como:

Corpo – é a sensação do peso geral do vinho. Encorpado e concentrado num extremo e leve e “mais líquido” no outro. É o primeiro e principal conceito a ser considerado tanto no vinho como na comida. Acertar os “pesos” entre eles garante que a harmonização tenha grande chance de agradar.

Acidez – a agradável sensação de “salivar” vem da acidez do vinho. Notar sua escala num vinho é essencial na degustação. Ela é muito usada para contrastar com pratos mais gordurosos.

Tanino – a adstringência do vinho provém dos taninos presentes nas uvas. Em vinhos maturados eles ficam macios e harmoniosos.

Álcool – derivado das fermentações, o álcool ajuda na sensação do peso do vinho.

Doçura – os vinhos podem ser doces quando são licorosos ou fortificados, mas também e em menor grau, nos vinhos tranquilos. Isso ocorre por causa dos açúcares residuais do processo de vinificação.

Frutado – é a quantidade percebida de aromas de frutas no vinho. Geralmente vinhos mais jovens, e que não passaram por maturação prolongada, são os mais frutados.

Textura – são as situações possíveis de textura no vinho: aspereza ou maciez. Quando bem evoluídos, os vinhos trazem sensações amanteigadas e aveludadas.

Esses são os fundamentos para a classificação do prato e do vinho. Ao se familiarizar com eles, você estará pronto para equilibrá-los na harmonização. Entendendo as estruturas de ambos, as possibilidades se abrem, sem que tenha que decorar receitas prontas.

Para completar, não se esqueça de que primeiramente é preciso que a comida e o vinho harmonizem com as pessoas presentes. Leve em consideração seus gostos particulares e o quanto estão abertas às novidades.

Se quiser entender mais dos conceitos de harmonização, como Harmonização por Contraste e Harmonização por Semelhança, baixe nosso e-book. Nele, você vai encontrar a técnica das barras de escala, usada na classificação do vinho e do prato, que ajudarão a criar experiências gastronômicas inesquecíveis.

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Vinho Laranja: uma novidade de 5.000 anos

Vinho laranja não é um bom nome. Skin contact whites (brancos em contato com a casca), como é conhecido em inglês, também não soa bem. Podemos adotar o nome preferido pelos seus produtores: vinho âmbar ou simplesmente branco macerado com a casca. Achou confuso? Então vamos explicar:

Vinho laranja ou vinho branco?

Os vinhos brancos, com muitos já devem saber, são feitos somente com a polpa das uvas brancas ou tintas. As cascas não entram no processo, e por isso, quando elaborados de uvas tintas, eles não possuem a coloração característica dessas castas.

No entanto, a exceção é o vinho laranja, ou âmbar. Eles são feitos somente de uvas brancas, mas com processos similares aos dos vinhos tintos, ou seja, as cascas permanecem durante a fermentação.

Outro fator característico essencial nesse tipo de vinho é o tempo de maturação; que muitas vezes é incrivelmente longo.

Então, por que não chamamos apenas de vinhos brancos? A diferença está no resultado. Um apreciador costumeiro de vinho branco ao se deparar com um vinho laranja será surpreendido pelo seu sabor, além da cor.

Quanto à coloração, a presença da lignina (composto orgânico) das cascas durante a maceração, dá aos vinhos os tons que variam do alaranjado ao cobre, passando por gradações de ocre, ouro, palha e dourado.

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As cores dos vinhos: tinto, rosé, laranja e branco.

É um vinho branco com tons de laranja. Se confunde com a cor de vinho branco oxidado, mas não é isso, pois a cor vem da casca e não da oxidação.

A diferença realmente importante em relação aos brancos fica por conta dos sabores e aromas. As cascas são fontes de taninos, o que dá aos vinhos laranjas estrutura, corpo e bastante complexidade. Com uma personalidade forte, alguns diriam extravagantes, o vinho âmbar veio para ser amado e odiado pelos enófilos.

Numa análise gustativa, ele se mostra próximo dos tintos mais delicados com sutis notas oxidativas e terrosas. Seus aromas remetem a frutos secos como nozes, ameixas, damasco, etc. É um tipo de vinho muito versátil que aumenta as possibilidades de harmonização. Acompanha muito bem pratos fortes como cordeiro, carnes de caça e aqueles muitos temperados presentes na culinária tailandesa e indiana.

Técnicas naturais e milenares do vinho âmbar

Os Vinhos Laranjas ficaram conhecidos por serem naturais porque os produtores (Gravner e Radikon) que trouxeram de volta técnicas antigas, adotam uma filosofia de vinificação baseada no respeito ao meio ambiente e procuram manter viva uma tradição milenar de vinificação. No entanto, isso não quer dizer que todo vinho laranja seja necessariamente orgânico ou biodinâmico.

A essência desses vinhos está no processo e começa com a escolha das castas, porque não são todas que possuem as características necessárias. É preciso uma casca grossa e bastante compostos fenólicos antioxidantes para que resistam ao tempo (oxidação). As mais usadas são:

Ribolla Gialla – com pele grossa, bastante acidez e muito sabor, é a principal uva branca da região de Friuli-Venezia Giulia (Itália) e de Brda (Eslovênia). Documentos escritos em 1289 já apontam sua existência nessa região. A Ribolla é uma das castas mais usadas nos vinhos laranjas italianos e os vinhos feitos com ela costumam ser encorpados.

Sauvignon Vert – uva branca originária da região do Vêneto com grande presença na região de Friuli, que posteriormente se espalhou para toda a Itália e resto do mundo. Tem grande potencial para apresentar níveis elevados de álcool, o que contribui na elaboração do vinho âmbar.

Pinot Grigio – chamada de ramato (ruivo) em italiano, é uma casta branca que nasceu para ser um clone da Pinot Noir. Conhecida desde a idade média, na França, ficou esquecida por décadas. Devido aos vinhos laranjas, a partir de 2005, goza de grande popularidade.

Os vinhedos são submetidos a baixa produção de frutas e colhidas tardiamente para aumentar a concentração de açúcares e polifenóis. Em seguida são prensadas e depois colocadas (mosto e cascas) dentro de enormes ânforas de terracota ou tanques de cimento para que ocorra a fermentação alcoólica. Com o objetivo de manter as técnicas ancestrais, os produtores não usam leveduras comerciais; somente leveduras selvagens.

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As ânforas (qvevri) são enterradas para a fermentação do vinho laranja.

Essas ânforas muitas vezes são enterradas para que recebam menos variações de luz, temperatura e oxigênio. Durante essas longas macerações, o álcool atua como um solvente e faz com que o sumo (mosto) da uva extraia das cascas substâncias como taninos, antocianos e alguns aromas.

O tempo de maceração vai depender da casta. Varia de algumas semanas até 6 ou 8 meses, e durante esse processo ocorre uma decantação natural dos sedimentos. Após isso é realizada a trasfega, que é a transferência do líquido para outras ânforas, a fim de filtrar o vinho. Como não são usadas técnicas modernas de filtração e clarificação, o vinho laranja na maioria das vezes tem um aspecto turvo.

E finalmente, nas ânforas de barro, permanecem por anos envelhecendo e se transformando antes do engarrafamento.

Essa tradição milenar faz com que os vinhos sejam bastante heterogêneos, sem padronizações comerciais, pois não são “corrigidos” com técnicas modernas. Deixam evidentes as características das castas, e isso ocorre tanto para o bem, como para o mal.

O fato é que são necessários anos de vitivinicultura para se arriscar nos métodos naturais de vinificação. Demanda tempo, habilidade quase artesanal e toda uma filosofia por trás do trabalho. Por esse motivo, a produção mundial é pequena e, talvez, nunca atinja uma larga escala.

Geórgia: histórias antigas da vinificação

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O mais conhecido produtor de vinhos laranjas é o italiano Josco Gravner. Seus vinhedos ficam nas montanhas (Collio) de Oslavia, na região de fronteira com a Eslovênia chamada de Friuli-Venezia Giulia – reconhecida pela produção de vinhos brancos.

Junto com seu amigo e também produtor, Stanislao ‘Stanko’ Radikon, foi o responsável pela redescoberta das antigas técnicas em meados da década de 1990. Mesmo com anos de experiência em produzir vinhos brancos, abandonou as técnicas modernas e partiu em busca das origens da vinificação. A jornada o levou até a Geórgia, na região do Cáucaso; uma terra antiga de muitas tradições.

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A vinificação moderna, a partir da década de 1950, deixou para trás técnicas primitivas que Gravner se propôs a resgatar. A fermentação dentro de ânforas de terracota, tradição com mais de 5,000 anos na Geórgia, era uma delas.

Chamadas de qvevri no idioma local, elas recebem o mosto (com as cascas), são fechadas e depois lacradas com cera de abelha para serem enterradas.

Após esse reaprendizado, Gravner viu seus vinhos alcançarem a notoriedade e conquistar apaixonados, enquanto surgiam seus primeiros discípulos. Fora da Itália e Eslovênia (particularmente na região de Brda), produtores franceses, americanos, austríacos e até brasileiros começaram a se arriscar nessa difícil maneira de produzir vinhos.

O nome vinho laranja se deu por acaso. Em 2004, um importador londrino, David Harvey, sem qualquer intenção de rotular ou inventar, chamou um “branco macerado com cascas” de orange wine (vinho laranja) e a onda se espalhou.

Enquanto a fama desses vinhos aumenta ano após ano, atiçando a curiosidade dos enófilos, muitos especialistas ironizam a novidade e a chamam de retrocesso na vinicultura.

Conclusão

Acreditamos que o vinho âmbar veio para ficar. Com seus aromas intensos, tons profundos e sabores complexos, ele acrescenta novas experiências ao mundo gastronômico. Eles são marcantes, exóticos e quase indecifráveis – e isso é um grande elogio.

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Vinho Sassicaia de Bolgheri: o primeiro Supertoscano

O nome Sassicaia, em dialeto toscano, já diz muito sobre sua origem: pedras (sassi), pedregoso (sassoso). Ridicularizado nos primeiros anos e aclamado mais tarde, o vinho Sassicaia é o único na Itália que possui uma DOC (Denominazione di Origine Controllata) própria, a DOC Bolgheri Sassicaia. O caminho não foi fácil, mas graças a excelência e a originalidade de seu produtor – a Tenuta San Guido – o mundo viu nascer na década de 1970 algo novo: os vinhos Supertoscanos.

Bolgheri, na Toscana, a região inspiradora

Na costa toscana, na província de Livorno, a pequena cidade de Castagneto Carducci olha para o mar Tirreno. Ao leste uma cadeia de montanhas protege as vinhas dos ventos de inverno, enquanto no verão os ventos refrescantes ajudam na maturação gradual dos principais componentes qualitativos da uva. Sol direto e espelhado pelo mar é outra característica desse microclima.

Com grande variabilidade de solo, a região é dividida por colinas, zona intermediária e terrenos mais próximos do mar.

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Tenuta San Guido

Os vinhedos estão espalhados de acordo com a exposição e tipo de solo por 90 hectares de terra. As vinhas são distribuídas entre 80 a 300 metros acima do nível do mar.

A separação das plantas em diferentes áreas oferece opções de escolha na hora da colheita, sendo um fator muito relevante na complexidade dos vinhos Sassicaia.

Foi essa linda paisagem, no começo do século XX, que inspirou um nobre marquês visionário.

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Região de Bolgheri, Toscana e a vinícola Tenuta San Guido

A ambição do marquês Mario Incisa della Rocchetta

As histórias das invenções provam que nada surge puramente ao acaso. Sempre há um degrau anterior no qual um inovador se apoia para trazer ao mundo novas ideias.

Na década de 1920, o jovem marquês Mario Incisa della Rocchetta, de família de vinicultores e criadores de cavalos, via um cenário de desvalorização dos vinhos italianos. Excluindo casos isolados como Barolo e Brunello di Montalcino, os vinhos italianos eram vistos como abundantes, porém, simples e sem grandes ambições. A fama crescente dos vinhos franceses reduzia os tradicionais Chiantis a meros coadjuvantes.

Após o casamento com a marquesa Clarice Della Gherardesca, em 1930, recebeu como dote várias fazendas e o castelo chamado de Castiglioncello di Bolgheri.

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Castiglioncello di Bolgheri

Em 1943 descobriu que seu avô Leopoldo Incisa della Rocchetta havia escrito, 80 anos atrás, um catálogo sobre os tipos de uvas nacionais e estrangeiras: “Descrição de 105 variedades de uvas indígenas e estrangeiras”. O marquês então, entusiasta admirador dos vinhos franceses de Bordeaux, imaginou criar um vinho nobre com castas francesas, porém, com essência italiana.

Ao encontrar a Cabernet Sauvingnon, concluiu:

“…encontrei o bouquet que eu estava procurando”.

Sua tacada genial foi ignorar os ensinamentos antigos, de que terrenos próximos ao mar não servem para produzir bons vinhos, e comparar a região pedregosa (sassosa) de Bolgheri ao terroir de Graves (cascalhos) de Bordeaux.

A iniciativa e determinação em reproduzir o corte bordalês (85% Cabernet Sauvignon e 15% Cabernet Franc) soava para seus conterrâneos uma teimosia descabida. Afinal a Toscana era a terra da uva Sangiovese.

No entanto, de 1948 a 1967, as garrafas de Sassicaia produzidas na Tenuta San Guido somente eram conhecidas pelos amigos das corridas de cavalos e familiares. E para o governo italiano, nada mais eram do que vino di tavola, ou vinhos de mesa.

Guardados nas adegas do castelo, onde o famoso poeta Giosuè Carducci, primeiro Nobel em literatura italiana criou seus versos, os vinhos evoluíram extraordinariamente, revelando um aprendizado: aqueles vinhos clamavam por paciência e amadurecimento.

Então, seu filho Nicolò Incisa o convenceu a comercializar o Sassicaia com a ajuda de Piero Antinori – produtor de outro supertoscano, o Tignanelo. Parte do acordo era incluir a participação do enólogo Giacomo Tachis, um discípulo de Emile Peynaud. Juntos, começaram a revolucionar a produção dos vinhos italianos. Sistemas de condução na plantação das videiras, uso de barris de carvalho, tanques de inox, fermentação malolática e outras inovações foram acrescentadas ao velho estilo italiano.

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Nicolò Incisa junto com seu pai, o Marquês Mario Incisa della Rocchetta
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O enólogo Giacomo Tachis

Nasce um ícone: o vinho Sassicaia

No histórico ano de 1968 o mundo recebia uma avalanche de mudanças no comportamento e costumes da sociedade com a contracultura, os direitos das mulheres e a rebeldia dos jovens. Nesse ano, a Tenuta San Guido ousava trazer para o mercado o primeiro Sassicaia.

Em 1974 o enólogo e crítico gastronômico Luigi Veronelli exalta as experiências em Bolgheri e chama atenção da comunidade de enófilos.

Em 1978 a revista Decanter classificou o Sassicaia safra 1972 como o melhor vinho do ano, reconhecendo definitivamente o trabalho do marquês.

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Mesmo ignorado em seu país (por trabalhar com uvas estrangeiras, e portanto fora dos padrões estabelecidos pelas leis italianas de qualidade), o mundo decidiu batizar os ótimos vinhos “fora da lei” de Supertoscanos.

Nos anos seguintes, a experiência do Sassicaia foi seguida por outros vinhos que também alcançaram a fama como o Solaia, Tignanelo e Ornellaia.

Em 1994 o governo italiano se rendeu às inovações toscanas e criou uma DOC Bolgheri; fazendo justiça às contribuições inovadoras do marquês e seus amigos.

Com o aumento da procura, a fama do Sassicaia percorreu o globo. Em 2004 a vinícola Tenuta San Guido se tornou parte do prestigiado Primum Familiae Vini, um seleto grupo de famílias tradicionais de vitivinicultores, criado para a troca de experiências do setor.

Conclusão

O marquês Mario Incisa foi um apaixonado por sua terra natal Bolgheri e gostava do convívio com a natureza. Tanto que anos mais tarde foi o fundador da wwf Itália, inaugurando um oásis para preservação da vida selvagem da região. Morto em 4 de setembro de 1983, seu legado foi a reinvenção do vinho toscano.

A inovação do Sassicaia confirma o fato de que bons vinhos são produzidos por pessoas e ideias, e não somente uvas. Nos mostra que a modernização traz benefícios para os artistas produtores, fazendo com que os vinhos alcancem novos patamares.

Grazie mille marchese!

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