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Vinho Barolo: um rei entre a tradição e a modernidade

O vinho Barolo é um ícone que simboliza a tradição italiana. Imponente como um rei, longevo e desafiador. Seu reinado secular seduziu a nobreza e o tornou um clássico. Produzido com a casta Nebbiolo, este vinho mantém um pé na tradição, como o da casa Giacomo Conterno, ao mesmo tempo em que se renova com o trabalho de Beni di Batasiolo.

DOCG Piemonte: a casa do Barolo

Piemonte é uma região no norte da Itália, e junto com a Toscana, possui o maior número de DOCG (Denominazione di Origine Controllata e Garantita). Terra dos aclamados Barbarescos e do espumante de Asti, a região é conhecida por ser a casa de vossa majestade: o Barolo.

A DOCG Barolo fica na província de Cuneo e abrange as comunas de Barolo, Castiglione Falletto, Serralunga d’Alba e ainda algumas áreas de Cherasco, Diano d’Alba, Grinzane Cavour, La Morra, Monforte d’Alba, Novello, Roddi, Verduno.

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A região demarcada de Barolo foi uma das primeiras DOCG italianas.

Uva Nebbiolo

Nebbiolo vem de nebbia (neblina), pois durante a vindima em outubro, a região de Piemonte costuma receber um denso nevoeiro.

Uma das características dessa variedade é sua sensibilidade ao terroir. Uma variedade exigente que não se adapta em qualquer lugar, sendo necessária muita drenagem no solo. É considerada de maturação tardia e com altos níveis de taninos, fazendo com que os vinhos feitos com ela, como o Barolo, precisem de tempo para serem amaciados.

Barolo: rei dos vinhos e vinho dos reis

Até poucos anos atrás, acreditava-se que o surgimento do Barolo estava ligado ao trabalho do enólogo e comerciante francês Louis Oudart. Ele teria sido apresentado ao casal Tancredi Falletti, marquês de Barolo e sua esposa Giulia Falletti, que pretendiam melhorar o vinho de sua propriedade. De fato, Oudart trabalhou na região, porém sua relação com estilo Barolo não foi comprovada historicamente.

Recentemente a pesquisadora Kerin O’Keefe, lançou uma tese que vem sendo aceita por muitos especialistas no assunto. O verdadeiro responsável pela “invenção” do Barolo seria o general e enólogo Paolo Francesco Staglieno. Ele trabalhou nas vinhas de Pollenzo e Grinzane, essa última a pedido de um importante personagem da história da Itália: Camilo Benso, conde de Cavour e um dos arquitetos da unificação da Itália no século XIX.

O Conde Benso tinha uma visão progressista e um tino para os negócios. Sob sua influência – e do casal Falletti – o vinho passou a circular entre a nobreza e ganhar notoriedade.

Staglieno havia publicado um livro “Istruzione intorno al miglior Modo di fare e conservare i vini em Piemonte” (As instruções sobre a melhor maneira de fazer e preservar vinhos em Piedmont, 1837), no qual pregava que o bom vinho tinha que ter clareza, secura, robustez e manter a qualidade durante a conservação.

Entre os apreciadores entusiasmados estavam os da Casa de Saboia – família nobre que comandava as regiões de Nice (França) e Piemonte (Itália). Eram tão poderosos que a relíquia católica do Santo Sudário ficou as cuidados dos descendentes por 500 anos (1453 a 1983).

A partir de então, o Barolo ficou conhecido como o vinho dos reis.

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Vinhos Barolos são famosos por sua longevidade.

Guerra dos Barolos

Para se tornar um Barolo, o vinho deve passar por 38 meses de envelhecimento (no mínimo) antes de estar disponível comercialmente. Desses, 18 meses devem ser nos barris e o restante em caves depois de engarrafado. E mais: se for um Reserva, o tempo do envelhecimento sobe para 62 meses no total.

Geralmente, um Barolo no estilo clássico precisa de 10 anos para atingir seu auge. Nesse momento os taninos já estarão domados e os famosos aromas de rosas e charuto podem ser apreciados. Provavelmente ele também terá um elevado nível de álcool e acidez. Essa é a fórmula clássica do Barolo, todavia mudanças estão em curso…

Durante a expansão do mercado consumidor de vinhos nas décadas de 1970 e 1980, os mais frutados e menos tânicos, viraram tendência. Na tentativa de acompanhar essas mudanças, a vinícola Ceretto, através de Paolo Cordero di Montezemolo, Elio Altare, Renato Ratti, assim como de Luciano Sandrone e Paolo Scavino começaram a desenvolver métodos para esse fim.

Eles diminuíram o tamanho das barricas de carvalho, o tempo de maturação (menos extração de tanino) e aumentaram o tempo do envelhecimento em garrafa. Porém, com o ambiente restrito as frutas se vão, e o equilíbrio pode se perder. Para resolver essa questão alguns produtores adicionavam outras castas como Arneis e Barbera, e assim manter o caráter mais suave e frutado.

Esses novos Barolos são conhecidos como modernos e foi o suficiente para o começo da chamada “Guerra dos Barolos”, ou seja, clássico versus moderno. Os primeiros alegando que a identidade secular pode estar se perdendo, enquanto os segundos afirmam que com a modernização é possível se obter grandes vinhos em menos tempo. Como sempre, os dois lados podem estar certos.

Mapa de Ratti, o terroir Barolo mapeado

Dentro da designação Barolo não existem oficialmente regiões consideradas Cru, mas nas décadas de 1970 e 1980 após os minuciosos estudos geológicos, o produtor Renato Ratti, desenhou um mapa das melhores vinhas (Mapa de Ratti), que ainda hoje é usado por comerciantes como parâmetro de qualidade.

Veja as sub-regiões consideradas de melhor qualidade separadas por comuna:

Barolo – Bricco Viole, Brunate, Cannubi, Cannubi Boschis, Rue, San Lorenzo, Sarmassa, Via Nuova;

Castiglione Falletto – Bricco Rocche, Fiasc, Mariondino, Monprivato, Parussi (ou Parusso), Pira, Rivera, Villero;

La Morra – Arborina, Brunate, Cerequio, Gattera, Giachini, Marcenasco, Rocche dell’Annunziata;

Monforte d’Alba – Bussia, Cicala, Colonnello, Dardi, Ginestra, Mosconi, Munie, Romirasco, Santo Stefano;

Serralunga d’Alba – Falletto, Francia, La Serra, Marenca, Marenca-Rivette, Margheria, Ornato, Parafada, Vigna Rionda.

Conclusão

A história desse clássico italiano nos prova que a percepção da qualidade de um grande vinho é admirada desde sempre. Esses ícones mundiais são a inspiração para muitos novos produtores, que amam a vitivinicultura e trabalham de forma cuidadosa e séria. Eles também almejam um dia se tornarem lendas; como um Barolo, o vinho dos reis.

Equipe VinumDay • um vinho para cada dia

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