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Vinho Château Petrus: uma lenda insuperável

Ele é chamado pelos enófilos de Rei Petrus; um rei sem castelo. Na propriedade Château Petrus não há um château, apenas uma construção camponesa simples de dois andares. A vinícola produz somente um vinho, e se a safra não estiver no padrão exigido, simplesmente não se produz nada no ano. Um vinho que não possui uma classificação oficial, nem é rotulado como Grand Cru. Apesar disso, figura em todas as listas dos melhores do mundo e os seus preços alcançam às alturas em leilões. Como é possível? Apresentamos a história de uma lenda: o Petrus de Pomerol.

vinhedos no chateau petrus
Vinhas da casta Merlot no Château Petrus.

O boutonnière Pétrus e sua argila azul

Pomerol é uma sub-região de Bordeaux. Os vinhedos do Petrus estão localizados em um platô no lado oriental. Toda Pomerol é constituída de cascalho, argila e areia, mas a região do Petrus é única, pois é uma colina de argila. Normalmente um solo com essas características busca a estabilidade na direção mais baixa do terreno. Mas não é o que acontece com o Château Petrus.

Seus 11,5 hectares, a 40 metros do nível do mar, estão no coração do chamado boutonnière Pétrus ou botão Petrus. Um solo único formado por 3 camadas. A primeira de cascalho, a segunda de um tipo muito denso e escuro de argila com a presença de bastante matéria orgânica; e uma terceira de argila azulada. É essa última – somente presente na propriedade Petrus – que faz toda a diferença. Na mineralogia, esse tipo de argila é classificada como esmectita, e não há nenhum vinhedo no mundo plantado sobre um terreno semelhante ao dessa pequena região de Pomerol.

Os romanos a chamavam de petrus (rocha), pois quando seca, a argila é tão dura quanto uma pedra. Estima-se que tenha 40 milhões de anos. Outra característica única nessa argila azul é a alta concentração de óxido de ferro.

solo argila azulada de chateau petrus
O Botão Petrus – subsolo composto de argila azulada.

Sabemos que a argila é formada por minúsculos cristais granulados de origem rochosa. No caso do Petrus, a argila azul endurece de tal forma que as vinhas são impedidas de aprofundar suas raízes. Isso acelera a produção concentrada de frutos, que se beneficiam da alta umidade retida por essa argila. Aliada aos cuidados meticulosos com as vinhas, o resultado são uvas com altos teores de tanino e qualidades insuperáveis.

Se o Pomerol é conhecido por ser território da variedade Merlot, o Château Petrus é sua principal morada. Pela complexidade e exuberância alcançada, costuma-se dizer que o sonho de toda Merlot é se tornar um Petrus. Apesar disso, em algumas safras pode conter uma pequena porcentagem de Cabernet Franc (tipicamente até 5%).

Como já vimos anteriormente, um terroir é a soma de características locais combinadas. Em Bordeaux, os fatores mudam expressivamente em poucos hectares. A altitude, a drenagem natural feita pelos cascalhos, a capacidade de um solo argiloso de reter água, as luzes solares refletidas pelas rochas, entre outras qualidades, fazem da região um complexo ecossistema para a vitivinicultura. Nesse cenário, a argila azul do Petrus é mais uma benção de Baco.

A ascensão do Château Petrus

A fama mundial do Château Petrus elevou a pequena região de Pomerol ao mesmo nível dos produtores da margem esquerda mais famosa, a região de Médoc. Mas isso só aconteceu durante um passado bem recente.

A propriedade onde está o Petrus pertencia a família Arnaud desde 1770, mas sem grande destaque na produção de vinhos. Tudo mudou em 1863, com a crise da filoxera. Uma praga (pulgão) invadiu a França, possivelmente através dos navios vindos da América, e devastou grande parte das vinhas de Bordeaux.

Os vinhedos foram todos replantados, e em 1878, o Petrus chamou a atenção por ganhar a medalha de ouro no Concurso Internacional de Paris. Seu preço subiu e rivalizou com os melhores do Médoc.

Em 1917, a família Arnaud formou a La Société Civile du Château Petrus e as ações da vinícola foram colocadas à venda.

A viúva do Hotel Loubat de Libourne, a madame Marie-Louise Loubat, adquiriu algumas dessas ações e com o passar dos anos aumentou sua participação. Em 1940 tornou-se a única proprietária.

Como não tinha filhos, após sua morte em 1961, sua sobrinha Lily Lacoste-Loubat herdou a propriedade.

Nessa época, Lily formou uma parceria com o negociante de vinhos Jean-Pierre Moueix, na qual ele ficaria responsável por expandir as vendas. Com um mercado interno concorrido, Moueix se voltou ao crescente mercado americano. Isso ficou mais fácil após a extraordinária safra de 1945.

Em 1956, fortes geadas arrasaram os vinhedos, e ao contrário das vinícolas vizinhas, a decisão do Château não foi o replantio, e sim, um corte profundo nas plantas, com o objetivo de que as próprias se recuperassem. Após uma espantosa recuperação, as velhas vinhas  foram mantidas e renasceram mais fortes que nunca. Começou, então, o reinado do Petrus.

O vinho caiu no gosto do clã americano mais famoso da América, os Kennedys. John Kennedy, por exemplo, confessou que era um dos seus vinhos preferidos.

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O lendário Château Petrus, na região de Pomerol, Bordeaux.

No início dos anos 1960, o revolucionário Émile Peynaud prestou algumas consultorias para o Château Petrus, mas foi com a chegada em 1964, do enólogo Jean-Claude Berrouet que o trabalho ganhou consistência.

Em 1969 Moueix assume como principal proprietário e faz a aquisição do vizinho Château Gazin.

A fama do vinho atinge um patamar único no mundo dos vinhos quando em 1982, o renomado crítico Robert Parker classificou-o sucessivamente com notas altíssimas. Desde então, o Rei do Pomerol se tornou um vinho raro e muito caro.

Em 1987, aconteceu um fato curioso, para não dizer radical: após um verão extremamente quente, as chuvas vieram e trouxeram um excesso de umidade que comprometeria a qualidade das uvas. Foram chamados helicópteros (sim!) para sobrevoar a plantação e assim ajudar na secagem.

Como o Château Petrus produz apenas um vinho de altíssima qualidade, nos anos em que as frutas estão comprometidas, simplesmente não são produzidos vinhos. A última vez que isso aconteceu foi em 1991.

Em 2008, o filho de Jean-Claude Berrouet, o também enólogo Olivier Berrouet, então com 33 anos, assumiu a frente dos trabalhos e realizou diversas modernizações nas adegas do Château Petrus.

Após a morte de Jean-Pierre Moueix, em 2003, seu filho Jean-François Moueix herdou a propriedade, e junto com sua família, é o atual dono do Château Petrus.

Vinificação do Petrus

Os métodos de vinificação do Petrus não são diferentes de muitos outros produtores de Bordeaux. Mas o cuidado com cada detalhe, mostra a seriedade e a paixão na elaboração de vinhos excepcionais.

O Château Petrus foi pioneiro ao adotar a técnica de éclaircissage, quando no início da frutificação, alguns frutos são estrategicamente cortados para que a planta concentre suas forças nos frutos restantes.

A colheita é feita manualmente e os bagos cuidadosamente separados. Em seguida, uma parte do mosto vai para os tanques de concreto com temperatura controlada por 18 a 25 dias para a fermentação alcoólica. Depois dessa etapa, é feita a fermentação malolática e o processo continua apenas com a clarificação (o Petrus nunca passa por filtração).

O vinho, então, segue para uma maturação em barris de carvalho francês novos por 18 a 20 meses.

Os sucos rejeitados durante o começo da vinificação são vendidos como produtos simples de Pomerol, mas ninguém sabe muito bem para onde; este é um dos segredos mais bem guardados de Bordeaux.

A complexidade alcançada pelo Petrus é realmente impressionante. Os felizardos que já degustaram algumas das melhores safras, descrevem-no como dono de uma textura sedosa nunca igualada por qualquer outro. Um bouquet riquíssimo e extremamente potente de especiarias, café, canela, trufas, chocolate, cerejas e ameixas.

Por que o preço do Petrus é tão alto?

O Château Petrus se transformou em um ícone mundial. Nos leilões, seus preços atingem cifras astronômicas, encorajando as falsificações. Ano após ano, ele permanece na lista dos melhores do mundo, como confirma a lista dos vinhos mais caros de 2016 do site Wine Searcher.

A produção é considerada baixíssima; são produzidas apenas de 30 a 50 mil garrafas por ano. Cerca de 40% das garrafas ficam na França e o restante é “dividido” principalmente entre americanos, alemães, ingleses, e ultimamente, asiáticos. Com uma demanda muito acima da oferta, seus preços continuam a subir. Menos por vontade imperiosa dos donos e mais pelos investidores famintos por lucro.

Apesar do próprio enólogo da casa, Olivier Berrouet, destacar as safras de 1975, 1982, 1990 e 1995, todos sabem que independente do ano, um Château Petrus é sinônimo de excelência na elaboração de um vinho.

Vida longa ao Rei do Pomerol, pois seu reinado está longe de acabar.

Equipe VinumDay • um vinho para cada dia

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4 comentários em “Vinho Château Petrus: uma lenda insuperável

  1. Matéria muito interessante! É um vinho literalmente dos ” sonhos”, para a maciça maioria dos apreciadores de vinhos
    Parabéns!

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